Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
Jean Giono
Imagino que Jean Giono haverá plantado não poucas árvores durante a sua vida. Só quem cavou a terra para acomodar uma raiz ou a esperança dela poderia ter escrito a singularíssima narrativa que é “O homem que plantava árvores”, uma indiscutível obra-prima da arte de contar. Claro que para que tal sucedesse era necessário que existisse um Jean Giono, mas essa condição básica, felizmente para todos nós, era já um dado adquirido e confirmado: o autor existia, só faltava que se pusesse a escrever a obra. Também faltava que o tempo decorresse, que a velhice se apresentasse para dizer: “Aqui estou”, pois só talvez numa idade avançada, como já então era a de Giono, seria possível escrever com as cores do real físico, como ele o fez, uma história concebida no mais secreto da elaboração ficcional. O plantador de árvores Elzéard Bouffier, que nunca existiu, é simplesmente uma personagem feita com os dois ingredientes mágicos da criação literária, o papel e a tinta com que nele se escreve. E contudo, ficamos a conhecê-lo logo à primeira referência que se lhe faz, como alguém a quem estivéssemos esperando há muito tempo. Plantou milhares de árvores nos Alpes franceses, depois esses milhares, por acção da própria natureza assim ajudada, multiplicaram-se em milhões, com elas regressaram as aves, regressaram os animais dos bosques, regressou a água, ali onde não tinha havido mais que secura. Em verdade, estamos esperando o aparecimento de uns quantos Elzéard Bouffier reais. Antes que seja demasiado tarde para o mundo.P.S. Tem razão o sr. D. Duarte de Bragança, tratava-se do Evangelho, não do Memorial, mas já não a tem quando diz que eu atribuo a paternidade de Jesus a um soldado romano. Nenhum dos milhões de leitores que o livro teve até hoje lho confirmaria. Conheço a tese, mas, creio que por uma questão de bom gosto, não a utilizei na história que escrevi. Em compensação, dediquei umas quantas páginas à concepção de Jesus por José e Maria, seus pais. Permito-me sugerir ao sr. D. Duarte de Bragança que leia o meu Evangelho. Atreva-se, não seja tímido, garanto-lhe que aproveitará com a leitura.


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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Guatemala
Cada dia se vai tornando mais claro em todo o mundo que o problema da justiça não é da justiça, mas dos juízes. A justiça está nas leis, nos códigos, portanto deveria ser fácil aplicá-la. Bastaria saber ler, entender o que está escrito, escutar de maneira isenta as alegações do acusador e do acusado, as testemunhas, se as houver, e finalmente, em consciência, julgar. A corrupção tem mil caras e a pior delas, neste particular, talvez seja, em qualquer sentido, a natureza da relação entre quem julga e quem é julgado. Um caso típico de perversão julgadora ocorreu muito recentemente na Guatemala onde o editor Raúl Figueroa Sarti da casa F&G Editores foi condenado a um ano de prisão comutável à razão de 25 quetzales diários e ao pagamento de uma multa de cinquenta mil quetzales, mais as custas do processo. Qual foi o crime de Raúl Figueroa? Haver publicado, a solicitação e com o conhecimento do seu respectivo autor, Mardo Arturo Escobar, uma fotografia que veio a ser inserida em um livro editado por F&G. Desse livro foram entregues ao agora acusador alguns exemplares da obra em questão. Aos juízes não importou nada que o próprio Mardo Escobar tivesse reconhecido que havia entregado voluntariamente uma fotografia a Raúl Figueroa, a quem deu autorização verbal para a usar numa publicação. Importou, sim, que o acusador fosse seu colega: Mardo Arturo Escobar trabalha no Quarto Juízo de Sentença Penal, sendo, portanto, companheiro de actividades de juízes, oficiais e magistrados...
Mas este caso não é um simples episódio de baixa corrupção. O acosso de que, desde há dois anos, tem sido alvo F&G Editores, enquadra-se na situação repressiva que se está vivendo na Guatemala, onde o poder oficial tem vindo a perseguir e a tentar calar as vozes discordantes, essas que, sem desânimo, continuam a denunciar as violações dos Direitos Humanos no país. Pelos vistos, tinha razão aquele já velho jogo de palavras entre Guatemala e Guatepior. Dos cidadãos guatemaltecos se espera que o inocente jogo não se transforme em triste realidade.


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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Um rei assim
O rei assim é o sr. D. Duarte de Bragança, pessoa medianamente instruída graças aos preceptores que lhe puseram logo à nascença, mas que, não obstante, detesta a literatura em geral e o que escrevo em particular, primeiramente porque considera que no Memorial do Convento lhe insultei a família e em segundo lugar porque a dita obra é, de acordo com o seu requintado linguajar de pretendente ao trono, uma “grande merda”. Não leu o livro, mas é evidente que o cheirou. Compreende-se, portanto, que, durante todos estes anos, eu não tenha incluído o sr. D. Duarte, de Bragança, note-se, na escolhida lista dos meus amigos políticos. Não me importo de levar uma bofetada de vez em quando, mas a virtude cristã de oferecer ao agressor a outra face é virtude que não cultivo. Tenho-me desforrado apreciando devidamente as qualidades de humorista involuntário que este neto do senhor D. João V manifesta sempre que tem de abrir a boca. Devo-lhe algumas das mais saborosas gargalhadas da minha vida.Isso acabou, a monarquia foi restaurada e há que ter muito cuidado com as palavras, não vão aparecer por aí, redivivos, o intendente Pina Manique ou o inspector Rosa Casaco. Como que restaurada a monarquia? perguntarão os meus leitores, estupefactos. Sim senhor, restaurada, afirmou-o quem tem as melhores razões para dizê-lo, o próprio pretendente. Que já não é pretendente, uma vez que a monarquia acaba de ser-nos restituída pelo drapejar da bandeira azul e branca na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Os moços do 31 da Armada (assim os escaladores se designam a si mesmos) têm já o seu lugar assegurado na História de Portugal, ao lado da padeira de Aljubarrota de quem se desconfia que afinal não matou castelhano nenhum. Não é o caso de agora, A bandeira esteve lá durante alguma horas (haverá um monárquico infiltrado na Câmara para ter impedido a retirada imediata?), pretende-se averiguar quem foram os autores da façanha, e isto acabará como sempre, em comédia, em farsa, em chacota. O sr. D. Duarte não tem estaleca para exigir na praça pública, perante a população reunida, que lhe sejam entregues a coroa, o ceptro e o trono.É pena que uma tão gloriosa acção vá acabar assim. Mas como, no fundo, sou uma pessoa cordata, amiga de ajudar o próximo, deixo aqui uma sugestão para o sr. D. Duarte de Bragança. Crie já uma equipa de futebol, uma equipa toda de jogadores monárquicos, treinador monárquico, massagista monárquico, todos monárquicos e, se possível, de sangue azul. Garanto-lhe que se chega a ganhar a liga, o país, este país que tão bem conhecemos se ajoelhará a seus pés.


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Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
África
Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que foi e continua a ser, desde há séculos, a existência no continente africano. O lugar do mundo onde se crê que a humanidade nasceu não era certamente o paraíso terrestre quando os primeiros “descobridores” europeus ali desembarcaram (ao contrário do que diz o mito bíblico. Adão não foi expulso do éden, simplesmente nunca nele entrou), mas, com a chegada do homem branco abriram-se de par em par, para os negros, as portas do inferno. Essas portas continuam implacavelmente abertas, gerações e gerações de africanos têm sido lançados à fogueira perante a mal disfarçada indiferença ou a impudente cumplicidade da opinião pública mundial. Um milhão de negros mortos pela guerra, pela fome ou por doenças que poderiam ter sido curadas, pesará sempre na balança de qualquer país dominador e ocupará menos espaço nos noticiários que as quinze vítimas de um serial killer. Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos. Contra o que ingenuamente muitos se obstinam em crer não haverá um tribunal de Deus ou da História para julgar as atrocidades cometidas por homens sobre outros homens. O futuro, sempre tão disponível para decretar essa modalidade de amnistia geral que é o esquecimento disfarçado de perdão, também é hábil em homologar, tácita ou explicitamente, quando tal convenha aos novos arranjos económicos, militares ou políticos, a impunidade por toda a vida aos autores directos e indirectos das mais monstruosas acções contra a carne e o espírito. É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas e igualmente não resistirá à tentação de pospor para um outro futuro ainda mais longínquo o mirífico momento da justiça universal em que muitos de nós fingimos acreditar como a maneira mais fácil, e também a mais hipócrita, de eludir responsabilidades que só a nós nos cabem, a este presente que somos. Pode-se compreender que alguém se desculpe alegando: “Não sabia”, mas é inaceitável que digamos: “Prefiro não saber”. O funcionamento do mundo deixou de ser o completo mistério que foi, as alavancas do mal encontram-se à vista de todos, para as mãos que as manejam já não há luvas bastantes que lhes escondam as manchas de sangue. Deveria portanto ser fácil a qualquer um escolher entre o lado da verdade e o lado da mentira, entre o respeito humano e o desprezo pelo outro, entre os que são pela vida e os que estão contra ela. Infelizmente as coisas nem sempre se passam assim. O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. Em tais casos não podemos desejar senão que a consciência nos venha sacudir urgentemente por um braço e nos pergunte à queima-roupa: “Aonde vais? Que fazes? Quem julgas tu que és?”. Uma insurreição das consciências livres é o que necessitaríamos. Será ainda possível?


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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
Yemen
À escritora colombiana Laura Restrepo, nossa amiga pelo coração e pelas ideias, encarregou-a Médicos sem Fronteiras que viajasse ao Yemen para depois contar o que lá tivesse visto, ouvido e sentido. O relato dessa experiência foi agora publicado no “El País semanal”, uma reportagem impressionante como, em princípio, qualquer outra que se faça em África, mas que a arte de narrar de Laura, ao recusar, como é próprio da sua natureza de escritora, os efeitos emotivos de uma escrita que intencionalmente apelasse à sensibilidade do leitor, prefere expressar por uma obstinada procura de realidade directa ao alcance de poucos. As descrições da chegada dos barcos que vêm da Somália, sobrecarregados de fugitivos que esperam encontrar no Yemen a solução das dificuldades que os empurraram para o mar, são de uma rara eficácia informativa. Vêm neles os homens, as mulheres e as crianças do costume, mas Laura Restrepo não tarda a mostrar-nos como é possível falar de homens sem estar obrigado a falar das mulheres e das crianças que com eles vieram, mas que das crianças seria impossível falar se não se falasse também, e sobretudo, das mães que os trazem, às vezes ainda na barriga. As situações em que essas mulheres vão encontrar-se depois de desembarcarem no Yemen constituem um catálogo completo das humilhações morais e físicas a que estão sujeitas só pelo facto de terem nascido mulheres. Por trás de cada palavra escrita por Laura há lágrimas, gemidos e gritos que seriam capazes de nos tirar o sono se a nossa flexível consciência não se tivesse acomodado à ideia de que o mundo vai aonde querem os que o dominam e que para nós já será bastante cultivar o nosso quintal o melhor que soubermos, sem que tenhamos de preocupar-nos com o que se passa do outro lado do muro. Esta, sim, é a mais velha história do mundo.

Ver vídeo da reportagem



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