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  <title>Outros Cadernos de Saramago</title>
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  <description>Outros Cadernos de Saramago - SAPO Blogs</description>
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  <pubDate>Mon, 22 Apr 2013 14:47:51 GMT</pubDate>
  <title>Homem novo</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
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&lt;div class=&quot;column&quot;&gt;
&lt;p&gt;Culturalmente, é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves intervalos de paz para a preparação das guerras futuras. Mas foi sempre em nome da paz que todas as guerras foram declaradas. É sempre para que amanhã vivam pacificamente os filhos que hoje são sacrificados os pais...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Isto se diz, isto se escreve, isto se faz acreditar, por saber-se que o homem, ainda que historicamente educado para a guerra, transporta no seu espírito um permanente anseio de paz. Daí que ela seja usada muitas vezes como meio de chantagem moral por aqueles que querem a guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, jura-se, sim, que se faz a guerra pela paz. Por isso todos os dias e em todas as partes do mundo continua a ser possível partirem homens para a guerra, continua a ser possível ir ela destruí-los nas suas próprias casas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Falei de cultura. Porventura serei mais claro se falar de revolução cultural, embora saibamos que se trata de uma expressão desgastada, muitas vezes perdida em projectos que a desnaturaram, consumida em contradições, extraviada em aventuras que acabaram por servir interesses que lhe eram radicalmente contrários.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No entanto, essas agitações nem sempre foram vãs. Abriram-se espaços, alargaram-se horizontes, ainda que me pareça que já é mais do que tempo de com- preender e proclamar que a única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;in O Caderno, 7 de maio de 2009&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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  <category>homem novo</category>
  <category>revolução</category>
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  <pubDate>Wed, 27 Mar 2013 12:19:18 GMT</pubDate>
  <title>Padre António Vieira</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;div class=&quot;column&quot;&gt;
&lt;p&gt;Isto a que chamam o meu estilo assenta na grande admiração e respeito que tenho pela língua que foi falada em Portugal nos séculos XVI e XVII. Abrimos os Sermões do Padre António Vieira e verificamos que há em tudo o que escreveu uma língua cheia de sabor e de ritmo, como se isso não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Nós não sabemos ao certo como se falava na época, mas sabemos como se escrevia. A língua então era um fluxo ininterrupto. Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo, mesmo que, por vezes, o seu curso seja interrompido por cataratas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Chegam dias de férias, uma boa ocasião para entrar nesta água, nesta língua escrita pelo Padre Vieira. Não aconselho nada a ninguém, mas digo que vou mergulhar na melhor prosa e vou desaparecer estes dias. Alguém quer acompanhar-me? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Caderno 2, 8 de abril de 2009&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>padre antónio vieira</category>
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  <pubDate>Fri, 08 Mar 2013 11:24:31 GMT</pubDate>
  <title>Com elas o caos não se teria instalado no mundo</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
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&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;layoutArea&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;column&quot;&gt;
&lt;p&gt;Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado planeta é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chegam-me informações oficiais de solenes insituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra dezasseis por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trân- sito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habita teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve. Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
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&lt;div class=&quot;column&quot;&gt;
&lt;p&gt;Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;José Saramago, O&lt;em&gt; Caderno I&lt;/em&gt;, 8 de março de 2009&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>saramago</category>
  <category>dia internacional da mulher</category>
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  <pubDate>Thu, 14 Feb 2013 12:24:16 GMT</pubDate>
  <title>Problemas de homens</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
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&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;layoutArea&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;column&quot;&gt;
&lt;p&gt;Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que crêem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume, é certo que só pouco a pouco, que esta vio- lência é um problema dos homens e que os homens têm de resolver. De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade e com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e à violência. Direito a usar o que consideravam seu. Este novo acto de violência de género, mais os que se produziram neste fim-de-semana, em Madrid uma menina assassinada, em Toledo uma mulher de trinta e três anos morta diante da sua filha de seis, deveriam ter feito sair os homens à rua. Talvez 100 000 homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;O Caderno 2&lt;/em&gt;, 27 de julho de 2009&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>violência</category>
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  <category>mulheres</category>
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  <pubDate>Tue, 05 Feb 2013 11:42:29 GMT</pubDate>
  <title>No centenário de Álvaro Cunhal</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: «O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal». O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta.&lt;br /&gt;in O Caderno 2, 31 de julho de 2009</description>
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  <category>álvaro cunhal</category>
  <category>caderno</category>
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  <pubDate>Wed, 26 Dec 2012 10:08:48 GMT</pubDate>
  <title>Dona Canô</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Morreu Dona Canô, mãe de Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros seis filhos. Era a matriarca de Santo Amaro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dos &lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote, Diário IV&lt;/em&gt;, uma passagem não escrita por José Saramago mas sim por Pilar del Río, a pedido do Autor, contando a passagem por Santo Amaro, ao som de Caetano Veloso perante a presença de Dona Canô:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia terminou em Santo Amaro, onde, como diziam os autocolantes que as pessoas levavam e que conservamos, «vi e ouvi Caetano em Santo Amaro». Há uns anos, José e eu ouvimos Miguel Ríos em Granada: «Volto a Granada, volto ao meu lar», cantava o roqueiro, e o som (todo ele) era tão cálido, tão de dentro, que José́ escreveu um artigo para o &lt;em&gt;Diario 16&lt;/em&gt;, intitulado «Alegria do português que foi a Granada», em clara alusão à canção de Miguel Ríos, de regresso à sua terra, e a Rafael Alberti, que escreveu, quando do assassínio de Lorca, aquele memorável poema que se chama &lt;em&gt;Nunca Fui a Granada&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Santo Amaro repetiram-se aquelas emoções. Cantava Caetano Veloso no lugar onde nasceu, na praça de uma cidade em festa. Esperavam-no os seus, a sua imensa família, as pedras das ruas, também aqui animadas, e as janelas das casas, todas elas repletas de ansiosos ouvintes de Caetano. E dos amigos de Caetano, porque o artista, como oferta de surpresa, apresentou os seus amigos, Gilberto Gil entre eles, que contribuíram, com os seus diferentes ritmos, para tornar maior a noite. A um lado do palco, majestosa, uma anciã de cabelo branco recolhido permanecia, elegantemente sentada, atenta aos músicos e aos espectadores. Olhávamo-la hipnotizados. Era Dona Canô, a mãe de Caetano, um pouco a mãe de Santo Amaro, animadora de todas as caridades, confidente de penas (as alegrias apregoam-se) e distribuidora da porção de paz de que todos precisamos para poder sobreviver. Também é uma excelente cozinheira, mas aqui «falta-lhe» a generosidade: ela, que dá de comer a quem tem necessidade ou a quem procura o prazer do gosto, emudece quando se lhe fala de revelar os seus segredos culinários. Muitas editoras brasileiras lhe pediram que escreva as suas receitas, mesmo os seus próprios filhos, todos magníficos gastrónomos, desconhecem o toque mágico que cada prato cozinhado por Dona Canô encerra. Eu creio que o elixir da sabedoria, na cozinha como na vida, é a generosidade. Talvez por isso ela não possa revelar nada: os pratos, simplesmente, saem-lhe assim, porque os faz para outros, com amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.youtube.com/embed/YDcvC2nFbUA&quot; width=&quot;420&quot; height=&quot;315&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>dona cano</category>
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  <pubDate>Fri, 14 Sep 2012 15:12:20 GMT</pubDate>
  <title>Chega sempre um momento em que é preciso dizer não</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efectivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não - ou a nossa própria fatalidade - é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim. José Saramago , in &quot;Folha de S. Paulo&quot; (1991)&lt;/p&gt;</description>
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  <category>cadernos</category>
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  <pubDate>Wed, 22 Aug 2012 16:39:35 GMT</pubDate>
  <title>Cão com lágrimas</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>22 de agosto de 1994&lt;br /&gt;Pela primeira vez em tanto subir e descer de avião, pudemos ver, do alto, a casa. Com a família toda ausente, em férias, e Luis a trabalhar à hora a que chegámos, só tínhamos o Pepe a receber-nos. O pobre animal nem podia acreditar que estávamos ali. Saltava de um para outro, enroscava-se nos nossos braços, gemia de um modo quase humano, e diabos me levem se não eram lágrimas, das autênticas, o que víamos correr-lhe dos olhos. A este cão, com perdão da vulgaridade, só lhe falta falar. Mais tarde, conversando com Pilar, manifestei uma pena: ter vivido sem cães até agora. Na Azinhaga não faltavam, já se sabe, houve-os em casa dos meus avós, mas não eram meus, olhavam-me desconfiados quando eu lá aparecia depois de uma ausência e só passados uns dias é que começavam a tolerar-me. Além disso, estavam ali para guardar a casa e o quintal, valiam pela utilidade que tinham e só enquanto a tivessem. Não me lembro de que algum deles chegasse a velho. Pensei nos golfinhos de Edmonton, tão bem ensinados, e, embora não goste de ver exibições de animais amestrados, achei que alguma razão profunda terá de haver para que certos ￼￼￼￼animais consigam suportar a presença humana... Perdi essa confiança à noite, vendo na televisão como um elefante, num circo, matava a patadas e golpes da tromba o domador, enquanto a música tocava e o público cria que tudo aquilo fazia parte do espetáculo. À noite, quando me deitei, extenuado por uma viagem de quase vinte e quatro horas entre voos e esperas de aeroporto, custou-me a adormecer: via os golfinhos sorridentes, o elefante enfurecido calcando o corpo já destroçado do domador. Foi então que me lembrei de uma velha crónica, de 1968, Os Animais Doidos de Cólera, em que imaginei a insurreição de todos os animais e a morte do último homem devorado por formigas, pela primeira vez lutando, não contra a humanidade, mas, agora já inutilmente, para defender o que restava dela... E também me lembrei do poema 12 de O Ano de 1993, aquele que acaba assim: «Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se ativamente ao cultivo de flores / Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora»... Alguma coisa está definitivamente errada no ser humano. Morrerei sem saber o quê.&lt;br /&gt;(Cadernos de Lanzarote, 2)</description>
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  <category>cadernos de lanzarote</category>
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  <pubDate>Thu, 16 Aug 2012 11:43:24 GMT</pubDate>
  <title>Salvar Badajoz</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>9 de fevereiro de 1995&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a história da aviação. Em Badajoz foi hoje dado nome a uma rua. O motivo, a causa, o pretexto, a razão, ou como se quiser chamar-lhes, já têm mais de cinquenta&lt;br /&gt;anos, e muito fortes terão sido para sobreviverem aos olvidos acumulados de duas gerações, justificados estes, em geral, pelo facto de as pessoas terem mais em que pensar. Não direi eu que os habitantes de Badajoz levaram este meio século e picos a transmitir uns aos outros o certificado de uma dívida que um dia teria de ser paga,&lt;br /&gt;o que digo é que algum badajoceño escrupuloso deve ter tido um rebate de consciência mais ou menos nestes termos: «Muitos dos que hoje vivem estariam mortos, outros não teriam chegado a nascer.» Parecerá um enigma da Esfinge, e afinal é só uma história da aviação.&lt;br /&gt;Há cinquenta e tantos anos, durante a guerra civil, um aviador republicano teve ordem de ir bombardear Badajoz. Foi lá, sobrevoou a cidade, olhou para baixo. E que viu quando olhou para baixo? Viu gente, viu pessoas. Que fez então o guerreiro? Desviou o avião e foi largar as bombas no campo. Quando regressou à base e deu conta do resultado da missão, comunicou que lhe parecia que tinha matado uma vaca. «Então, Badajoz?», perguntou o capitão. «Nada, havia lá gente», respondeu o piloto. «Pois», fez o superior, e, por impossível que pareça, o aviador não foi levado a conselho de guerra... Agora há em Badajoz uma rua com o nome de um homem que um dia teve pessoas na mira da sua bomba e pensou que essa era justamente uma boa razão para não a largar.&lt;br /&gt;Chove depois de quatro meses sem cair uma gota. O vento tinha começado a rodar para noroeste ontem ao princípio da noite. Esta manhã, nuvens baixas, cinzentas, avançavam das bandas de Femés. Para leste, o céu ainda estava meio descoberto, mas o azul já tinha um tom aguado, sinal de chuva para breve. A meio do dia o vento cresceu, as nuvens desceram mais, começaram a descair pelas encostas dos montes, quase roçando o chão, e em pouco tempo taparam todo o horizonte daquele lado. Fuerteventura sumiu-se no mar. A primeira chuva limitou-se a umas esparsas e finas gotas, menos do que um chuvisco, uma poeira de água, mas quinze minutos depois já caía em fios contínuos, depois em cordas grossas que o vento vinha empurrando na nossa direção. Víamos avan- çar a chuva em cortinas sucessivas, passava diante de nós como se não tivesse intenção de deter-se, mas o chão res- sequido respirava sofregamente a água. O mais puro de todos os odores, o da terra molhada, embriagou-nos durante um instante. «Que bonito é o mundo», disse eu. Pilar, em silêncio, apoiou a cabeça no meu ombro. Agora são oito horas da noite, continua a chover. A água já deve ter chegado às raízes mais fundas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cadernos de Lanzarote III</description>
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  <category>cadernos de lanzarote</category>
  <category>badajoz</category>
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  <pubDate>Thu, 02 Aug 2012 13:00:10 GMT</pubDate>
  <title>“Entra, encontraste a tua casa”</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/158715.html</link>
  <description>&lt;p&gt;De Saramago para Pepe, Greta e Camões. Os cães de Saramago são três. E os três, por essa ordem, tocaram um dia à sua porta. Cães que vieram corrigir um medo de infância na memória do escritor. Cães que, na realidade, são um único: o imaginário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O cão é o melhor amigo do homem, Ensinaram-me isso nos tempos da velha instrução primária, com aulas de manhã e folga às quintas. O professor era um homem alto e calvo, grave na sua posição de diretor, mas amigo dos alunos e nada exagerado na disciplina. Punha muito empenho em questões de formação moral, e o cão era um dos seus grandes temas. Uma vez por mês, no mínimo, havia uma lição sentimental sobre as proezas do povo canino: “pilotos” abandonados que regressavam a casa do dono depois de percorrer centenas de quilómetros, abnegados “guadianas” que se lançavam à água para salvar crianças (“pagai o mal com o bem”) das quais, porventura, tinham recebido alguns maus-tratos. Enfim, ideias educativas de há cem anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me serviram de muito as lições do meu professor. Os cães que fui conhecendo ao longo da minha existência sempre fizeram gala de uma obstinada animadversão em relação a mim. Ou porque cheiravam o medo, ou porque os irritava a falta de jeito com que tentava dissimulá-lo, sempre houve entre os cães e eu, se não a guerra aberta de que só eu saía a perder, pelo menos uma relação de mútua e desconfiada reserva. Recordo com despeito, por exemplo, aquele chucho castanho que vinha a correr pela ruela estreita e sem proteção, arrastando atrás de si uma trela partida, e que, sem aviso, ou talvez por um qualquer gesto brusco que eu fiz, (“o cão só ataca se for provocado”), se é que não mostrei simplesmente temor (“nunca se deve fugir de um cão, é um animal nobre e não ataca pelas costas”), ferrou-me os dentes quando passou por mim e, depois de me arranhar as canelas, deixando-me a escorrer sangue, seguiu o seu caminho, abanando o rabo de pura alegria. Alguns anos mais tarde, andava eu a vaguear, como era meu hábito, pelos arredores da aldeia, entre árvores e canaviais, quando de repente me dou de caras com um cão. Conhecia-o de vista e da má fama que tinha, um gigante de raça indefinida e caráter avesso que não tolerava intrusos no seu território e se divertia quebrando a espinha em menos tempo do que leva a dizê-lo, qualquer bicho que lhe aparecesse pela frente. ((Tal como o chucho castanho, também ele não tinha estado nas aulas do meu professor). Ora bem, quis o acaso, ou a providência, que eu tivesse comigo uma cana grossa e comprida para me apoiar nas subidas e descidas da caminhada. Quando aquele fantasma me apareceu à frente, só tive tempo de levantar a cana num movimento instintivo, com a ponta a um palmo do focinho do malvado, e ali ficámos os dois durante não sei quanto minutos, o dragão aos saltos, fintando e grunhindo, simulando indiferença para depois voltar à carga, eu a suar de pavor, com a voz embargada na garganta, longe de qualquer socorro, abandonado ao negro destino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Escapei. Por fim, o bruto cansou-se. Depois de me observar longamente e com minúcia, como se me tomasse as medidas, pareceu-lhe que eu não era digno da sua cólera. Dei meia volta e desapareceu num trompicar curto e desdenhoso, sem olhar para trás. Fui-me afastando devagar, às arrecuas, ainda a tremer, até que cheguei a casa e contei o sucedido a uma tia minha que não acreditou na história. Era tal a reputação do monstro que eu dizer que o tinha vencido com uma simples cana deve ter-lhe parecido a mais descarada das mentiras...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A partir de então, e crendo que assim seria para sempre, perdi a confiança na apregoada bondade dos cães, a tal de que o meu velho professor tinha sido um tão convicto propagandista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente nunca pensou que entre os cães e os homens não há grandes diferenças: uns são bons, outros maus, outros nem uma coisa nem outra. Perguntei-me algumas vezes que lição poderia ele dar-nos a respeito de certos canídeos que andam por aí, bem tratados, com pelo brilhante, pata forte e dente afiado, dotados de um profundo conhecimento da anatomia humana e dos modos mais eficazes de danificá-la. Ele que tanto gostava de nos explicar os complementos-circunstanciais-de-lugar, sem saber em que lides nos ia meter...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passados muitos muitos anos, noutra terra, debaixo de outro céu, um cão apareceu à minha porta. Tinha fome e sede. Demos-lhe água e comida, e deixámo-lo. Voltou poucas horas depois e olhou para nós. Então dissemos-lhe: “Entra, encontraste a tua casa”. Não foi o único. Outros dois, cada um por seu lado, vieram perguntar se a casa também estava aberta para eles. Dissemos-lhes que sim. Chamam-se, por ordem, Pepe, Greta e Camões. São os nossos cães, e está tudo dito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não, não está tudo dito. Este homem que não se envergonha de confessar que tinha medo dos cães dedicou parte do seu trabalho de escritor a criar, a inventar, a modelar figuras de cão, como se, já que temia os outros, estivesse na sua mão corrigir os erros da natureza. Assim pôs no mundo da literatura o cão Constante de Levantado do chão, o cão do fio de lã azul da Jangada de pedra, o cão das lágrimas do Ensaio sobre a Cegueira. Esse sobre o qual eu disse que, se o que escrevi caísse no esquecimento, ao menos que de mim restasse a memória de ter dado vida a um cão em que palpitava o coração do melhor dos humanos...&lt;/p&gt;</description>
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  <category>cão camões</category>
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  <pubDate>Mon, 28 May 2012 12:13:48 GMT</pubDate>
  <title>Memórias de 1934</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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&lt;p&gt;&lt;span&gt;Encontro na Caminho algumas cartas de leitores que ainda não conhecem o meu endereço... Uma delas traz no remetente um apelido que me é familiar desde há mais de sessenta anos, desde 1934 precisamente, quando, tendo &lt;/span&gt;deixado o Liceu de Gil Vicente, comecei a frequentar a Escola Industrial de Afonso Domingues, donde sairia com o curso de serralheiro mecânico. Durante o tempo que ali andei, foi meu professor de Mecânica e de Matemática o engenheiro Jorge O’Neill, que, catorze anos mais tarde, viria a dar-me emprego na Companhia Previdente (de que era administrador-delegado), quando, na sequência da campanha presidencial de Norton de Matos, me demiti, antes que fosse demitido, da Caixa de Previdência onde trabalhava. Um certo Dr. Góis Mota, ajudante da Procuradoria-Geral da República, comandante da Brigada Naval da Legião Portuguesa e «fiscal» do comportamento político dos empregados da Caixa, de que era assessor jurídico, instaurou-nos, a mim e a outro colega, uma caricatura de processo disciplinar, durante o qual me disse (sic) que se os meus camaradas tivessem ganho ele estaria pendurado num candeeiro da Avenida... A minha culpa visível tinha sido, simplesmente, a de não acatar a ordem de que todo o pessoal deveria concentrar-se, no dia da eleição, à porta da secção de voto do Liceu de Camões, porque ele, Góis Mota, segundo dizia, requerera e tinha em seu poder as certidões de eleitor de todos nós, de modo a que pudéssemos ir votar a uma secção que não fosse a nossa. O legionário Góis Mota, ajudante do Procurador da República, estava a mentir: votei na Graça, como devia, e ninguém me disse que, por ter sido passada certidão de eleitor, não podia votar ali. (Na eleição seguinte o meu nome deixaria de constar dos cadernos eleitorais...)&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;&lt;span&gt;A carta que tinha agora nas mãos estava assinada por Madalena O’Neill e recordava-me, como se recorda um sonho, os dias em que, a pedido do pai, eu frequentara a sua casa da Junqueira para organizar, classificar e arrumar a velha biblioteca da família. Eis a história: &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;«Há uns anos, não tão poucos como isso, que uma menina, ainda criança, esperava ansiosamente por um senhor que, aos olhos dela, era muito alto e muito magro, com uns óculos de aro castanho e uma camisa branca. Talvez uns suspensórios a segurar as calças!!! Tenho essa impressão, mas já não sei.&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;&lt;span&gt;«Essa menina tinha uma paixão secreta por esse senhor, digo paixão porque não encontro outra palavra mais adequada, nada tem que ver com a de um adulto. Recusava ir para o quarto antes de ele chegar, mas, quando ele chegava, sua timidez tornava-a muda, e limitava-se a ficar ali em silêncio a vê-lo trabalhar. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;«Um dia seu pai recebeu de presente um pisa-papéis que ela achava uma beleza. Era todo de vidro e tinha um efeito colorido lá dentro, não sei se não tinha também qualquer anúncio de qualquer produto, o que com certeza estragava a peça, mas para todos os efeitos ela gostava imenso daquela bola de vidro e não tirava os olhos dela. O pai, quando reparou na validade que aquele objeto tinha para sua filha, deu-lho, e foi esse um dos dias mais felizes da vida dela. Nunca mais se separou da tal bola, que para ela era mágica. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;«Um dia chegou em que ela quis que o tal senhor soubesse o que ela sentia por ele e, despedindo-se da sua querida bola, que também tinha tido um lugar no seu coração, entregou-lha sem pestanejar. O tal senhor, que olhava para tudo admirado, ainda perguntou: “Tem a certeza de que mo quer dar?” Ao que ela, embaraçada, mas com firmeza, disse que sim. Não foi capaz de dizer mais nada e ficou felicíssima por ter tido a coragem de fazer tal gesto. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;«Passaram-se algumas dezenas de anos e a tal criança de outrora, que agora já é bem crescida, continua a lembrar-se de tudo, porque tudo de importante que se passa &lt;/span&gt;num coração que ainda não está muito estragado com esta vida cheia de obstáculos, fica lá registado para sempre. Não sei se poderei dizer o mesmo do tal senhor, que, apesar de ter recebido um presente saído dum coração tão aberto, talvez não lhe tenha dado qualquer valor, não digo ao objeto, mas ao ato daquela criança. Eu gostaria de saber que sim, mas tenho quase a certeza de que a resposta é não, porque as pessoas, quando chegam a adultos, fecham os corações e abrem as cabeças, onde só passa a existir o racional.»&lt;/p&gt;
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&lt;p&gt;&lt;span&gt;A partir daqui, a carta trata de um assunto de natureza profissional, que não tem que entrar nestes &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Cadernos. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Responderei a Madalena O’Neill um destes dias, depois de ter posto em ordem a minha própria memória. Uma coisa eu sei: que não usava suspensórios... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Vou andando em direção à Escola Secundária dos Anjos, onde terei um encontro com alunos para lhes falar do &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Ano da Morte de Ricardo Reis, &lt;/span&gt;&lt;span&gt;vou a pensar, agradecido, na menina que gostava de mim e me ofereceu, como prova do seu amor, há quarenta anos, o pesa-papéis de vidro que lhe tinha sido dado pelo pai, e eis que uma outra menina vem direita a mim com uma flor na mão, dessas sem nome que a primavera faz nascer entre as pedras, e pergunta-me: «Quer?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;in &quot;Cadernos de Lanzarote - volume IV, 28 de maio de 1996&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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  <pubDate>Wed, 16 May 2012 09:28:50 GMT</pubDate>
  <title>Carlos Fuentes</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Carlos Fuentes, criador da expressão “território de La Mancha”, uma fórmula feliz que passou a exprimir a diversidade e a complexidade das vivências existenciais e culturais que unem a Península Ibérica e a América do Sul, acaba de receber em Toledo o Prémio D. Quixote. O que se segue é a minha homenagem ao escritor, ao homem, ao amigo.O primeiro livro de Carlos Fuentes que li foi “Aura”. Embora não tenha voltado a ele, guardei até hoje (mais de quarenta anos passaram) a impressão de haver penetrado num mundo diferente de tudo o que conhecera até então, uma atmosfera composta de objectividade realista e de misteriosa magia, em que estes contrários, afinal mais aparentes que efectivos, se fundiam para criar no espírito do leitor uma envolvência em todos os aspectos singular. Não foram muitos os casos em que o encontro de um livro tenha deixado na minha memória uma tão intensa e perene lembrança.Não era um tempo em que as literaturas americanas (às do Sul me refiro) gozassem de um especial favor do público ilustrado. Fascinados desde gerações pelas &lt;em&gt;lumières&lt;/em&gt; francesas, hoje empalidecidas, observávamos com certa displicência (a fingida displicência da ignorância que sofre por ter de reconhecer-se como tal) o que se ia fazendo para baixo do rio Grande e que, para agravar a situação, embora pudesse viajar com relativo à vontade a Espanha, mal se detinha em Portugal. Havia lacunas, livros que simplesmente não apareciam nas livrarias, e também a confrangedora falta de uma crítica competente que nos ajudasse a encontrar, no pouco que ia sendo posto ao nosso alcance, o muito de excelente que aquelas literaturas, lutando em muitos casos com dificuldades semelhantes, iam tenazmente elaborando. No fundo, talvez houvesse uma outra explicação: os livros viajavam pouco, mas nós ainda viajávamos menos.A minha primeira viagem ao México foi para participar, em Morelia, num congresso sobre a crónica. Não tive então tempo para visitar livrarias, mas já começara a frequentar com assiduidade a obra de Carlos Fuentes através, por exemplo, da leitura de livros fundamentais, como foram os casos de “La región más transparente” e “La muerte de Artemio Cruz”. Tornou-se-me claro que estava ali um escritor de altíssima categoria artística e de uma incomum riqueza conceptual. Mais tarde, um outro romance extraordinário, “Terra nostra”, rasgou-me novas perspectivas, e daí em diante, sem que seja necessário referir aqui outros títulos (salvo “El espejo enterrado”, livro de fundo, indispensável a um conhecimento sensível e consciente da América do Sul, como sempre preferi chamar-lhe), reconheci-me, definitivamente, como devoto admirador do autor de “Gringo Viego”. Conhecia já o escritor, faltava-me conhecer o homem.Agora, uma confissão. Não sou pessoa facilmente intimidável, muito pelo contrário, mas os meus primeiros contactos com Carlos Fuentes, em todo o caso sempre cordiais, como era lógico esperar de duas pessoas bem educadas, não foram fáceis, não por culpa dele, mas por uma espécie de resistência minha a aceitar com naturalidade o que em Carlos Fuentes era naturalíssimo, isto é, a sua forma de vestir. Todos sabemos que Fuentes veste bem, com elegância e bom gosto, a camisa sem uma ruga, as calças de vinco perfeito, mas, por ignotas razões, eu pensava que um escritor, especialmente se pertencia àquela parte do mundo, não deveria vestir assim. Engano meu. Afinal, Carlos Fuentes tornou compatível a maior exigência crítica, o maior rigor ético, que são os seus, com uma gravata bem escolhida. Não é pequena cousa, creiam-me.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(14 de Outubro de 2008)&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 16 May 2012 09:10:42 GMT</pubDate>
  <title>Carlos Fuentes em Lanzarote</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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&lt;p&gt;&lt;span&gt;28 de agosto de 1997&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Carlos Fuentes, o grande escritor mexicano, a quem admiro desde que, há muitos anos já, li esse livro fasci&lt;/span&gt;&lt;span&gt;nante que é &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Aura, &lt;/span&gt;&lt;span&gt;passou ontem por Lanzarote. Veio com sua mulher, a jornalista Silvia Lemus, estiveram algumas horas (duas delas ocupadas por uma entrevista que dei a Silvia), e juntos visitámos a Fundação César Manrique. Ficou claro, logo desde o primeiro momento, que estávamos a colocar a primeira pedra de uma amizade que se consolidará (estou certo disso) na viagem que Pilar e eu faremos, no próximo ano, ao México. Registo aqui o recolhimento com que Carlos Fuentes leu o poema de Rafael Alberti dedicado a César Manrique, aquele que está na Fundação: Vuelvo a encontrar mi azul... No fim, Fuentes disse: «Poetas como Alberti e Neruda convertem em poesia tudo o que tocam.» Foi um dia grande para Lanzarote.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;in Cadernos de Lanzarote, volume V&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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  <category>carlos fuentes</category>
  <category>lanzarote</category>
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  <pubDate>Mon, 07 May 2012 12:55:09 GMT</pubDate>
  <title>O velho, o rapaz e o burro</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>«Os desencontros e turbulências das relações entre Portugal e Brasil resultam provavelmente de um equí- voco. Meteu-se-nos na cabeça que estamos obrigados a unir-nos por um amor mais que perfeito, por uma com- preensão exemplar, por uma ligação espiritual sem par no universo. E que se não puder ser assim, então não vale a pena. Oscilamos portanto entre o tudo e o nada, como se andássemos a incubar desde há séculos uma paixão tem- pestuosa (em todo o caso mais sofrida do lado de cá do que sentida do lado de lá), a qual, não tendo podido alcançar a consumação plena, passou a alimentar-se de pequenas anedotas, de pequenos despeitos, de pequenos rancores, sempre demonstrativos de que a culpa é deles. A história do velho, do rapaz e do burro parece ter sido escrita para mostrar como no dia a dia da relação de por- tugueses e brasileiros uns com os outros se armam con- flitos, se insinuam suspeitas de segundas intenções, se desenham conscientes ou inconscientes desdéns. Claro que o símile não é exato em todos os seus pontos. Se é certo que os portugueses não se oporiam demasiado a desempenhar o papel do velho (a isso aconselhariam os séculos de história de que tanto se gabam), se a persona- gem do moço assentaria como uma luva aos brasileiros (independentes, por assim dizer, desde anteontem), já é duvidoso haver alguém em qualquer das nossas duas margens atlânticas disposto a reconhecer-se no burro, mesmo sendo o que menos culpas tem na historieta. Que para ilustração das novas gerações brevemente se narra. «(O avô ia a pé e o neto no burro. Cruzaram-se com uma pessoa a quem pareceu o caso mal: que vergonha, o pobre velho à pata e o moço regalado de poleiro. Atento às bocas do mundo, o avô fez descer o rapaz e foi ocupar-lhe o lugar no lombo do jumento. Imediatamente protestou ￼￼￼￼￼￼outro contra o atentado: o infeliz menino a pisar o pó dos caminhos enquanto o malandro do velho viajava repim- pado na albarda. Desceu então o avô e resolveu que conti- nuariam os dois a pé, deixando ir o burro sem carga. Mas não tardou que outro passante se risse da estupidez: aque- les tinham uma besta de carga e não se serviam dela. Perante isto, o velho tornou a sentar o neto no burro e montou atrás dele, mas logo surgiu outra pessoa a protes- tar contra a crueldade com que os desapiedados tratavam o animalzinho, obrigando-o a aguentar dupla carga. Então o velho disse: “Deixemos que falem estes e vamos nós como antes.” Fez subir o neto para o dorso do jumento, e, com a lição aprendida, seguiram os três o seu destino.) «Há muito desta história de velho, rapaz e burro nas relações luso-brasileiras. Não damos um passo sem que nos atropelem dificuldades, umas nascidas ali, outras vin- das de longe mas renovadas e melhoradas para a ocasião. Ainda as assinaturas não secaram em alguns tratados e acordos laboriosamente tecidos e já os patriotas encarta- dos de um lado e do outro começam a gritar que eles nos enganaram. Nunca se viu gente que tanto desconfie do parceiro a quem ao mesmo tempo vem chamando irmão e amigo. Por cima da mesa assiste-se ao florir contínuo duma retórica vã, bordada de artifícios e aparências, mas por baixo fervem as chacotas e as piadas insultantes. Põe-se milagrosamente de pé, tem-te não caias, uma CPLP, e imediatamente se começa a minar-lhe o chão para que se desmorone e afunde. Proclamamos reciprocidades de direitos e logo tratamos de fechar a porta a quem os rei- vindica. Imaginámos uma fraternidade que não existe de facto, fizemos dela um teto sob o qual nos abrigaríamos juntinhos, como irmãos ou primos carnais, e todos os dias vemos que o tal teto não tem colunas que duradoura￼￼￼￼￼￼￼￼￼￼mente o sustentem, que quase tudo o que debaixo dele se diz e faz será para desmentir ou anular no dia seguinte. «Ponhamos então o amor de parte, deixemo-nos de irmandades postiças, comporte-se Portugal como se o Bra- sil fosse um outro qualquer país com que simplesmente mantemos boas relações. Faça o Brasil o mesmo em rela- ção a nós. Depois identifiquemos interesses comuns aos dois países, definamos claramente as opções, ponhamos os meios necessários, e cometido isto, trabalhemos juntos. Sem discursos. Quem sabe se o amor (um verdadeiro amor feito de respeito mútuo e de dignidade discreta) não virá depois? Já se tentou tudo, e não deu resultado. Ao menos o avô da história acabou por compreender.»
&lt;p&gt;(artigo publicado na revista Visão e incluído nos Cadernos de Lanzarote, Diário V, 17 de setembro de 1997)</description>
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  <pubDate>Tue, 01 May 2012 09:39:08 GMT</pubDate>
  <title>Golo na própria baliza</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito seculo que está prestes a acabar? (Digo maldito e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: &quot;Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer&quot;. Sem dúvida, mas não desta maneira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(&lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote - Diário II&lt;/em&gt;, 3 de julho de 1994)&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 05 Apr 2012 13:36:58 GMT</pubDate>
  <title>O factor Deus</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/157150.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá &quot;ver&quot; cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez &quot;aqui estou&quot; quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talibans, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o &quot;factor Deus&quot;, esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o &quot;factor Deus&quot; o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o &quot;factor Deus&quot; em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o &quot;factor Deus&quot;, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do &quot;factor Deus&quot;. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;object width=&quot;420&quot; height=&quot;315&quot; classid=&quot;clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000&quot; codebase=&quot;http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0&quot;&gt;&lt;param name=&quot;allowFullScreen&quot; value=&quot;true&quot; /&gt;&lt;param name=&quot;allowscriptaccess&quot; value=&quot;always&quot; /&gt;&lt;param name=&quot;src&quot; value=&quot;http://www.youtube.com/v/TUmePaURzSo?version=3&amp;amp;hl=es_ES&amp;amp;rel=0&quot; /&gt;&lt;param name=&quot;allowfullscreen&quot; value=&quot;true&quot; /&gt;&lt;embed width=&quot;420&quot; height=&quot;315&quot; type=&quot;application/x-shockwave-flash&quot; src=&quot;http://www.youtube.com/v/TUmePaURzSo?version=3&amp;amp;hl=es_ES&amp;amp;rel=0&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; allowscriptaccess=&quot;always&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; /&gt;&lt;/object&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 03 Apr 2012 10:51:34 GMT</pubDate>
  <title>3 de abril (de 1996)</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; cresceu, fez-se homem. Os dentes, que ao princípio, quando nos apareceu aqui, há cinco meses, não passavam de uma fina serrilha, tornaram-se em armas poderosas, e as patas trangalhadanças, que antes pareciam não saber andar na mesma direção, aprenderam a desferir golpes violentos e certeiros, capazes de derrubar qualquer adversário. Já não se esconde debaixo das camas quando a &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; lhe entram as fúrias do seu oteliano ciúme. Agora responde de igual para igual e as rixas são tremendas. &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; não quer perder a autoridade de &lt;em&gt;primis occupantis&lt;/em&gt; e, pelo que se vê, &lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; anda a querer tomá-la para si, embora tenha sido o último a chegar. &lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; é mais alto, &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; mais maciço. Estão um para o outro. Mas &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; tem o costume de lutar ladeando um pouco a cabeça, e isso é mau para ele, além de representar, se o manual diz certo, um primeiro sinal de fraqueza: como um karateca cinturão negro, &lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; desfere fulminantes patadas que já mais de uma vez foram alcançar e ferir o olho direito de &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt;. É difícil separá-los quando brigam, parece que levam lá dentro, acumuladas, todas as raivas do mundo. Já quase desespero de fazê-los entender que nesta casa há lugar para todos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Atenção: embora os nomes sejam humanos, é de cães que estou a falar. O que me deixa ainda uma certa esperança.)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não é a primeira carta anónima que me entra em casa. Mas, ao contrário de outras, repugnantemente sujas pelos próprios insultos com que querem atingir-me, esta, com limpeza e confiança, diz-me: «Precisamos que continues a escrever.» E, afinal, nem é tão anónima assim. Traz assinatura: Um camarada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Diário IV&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 27 Feb 2012 00:01:08 GMT</pubDate>
  <title>A Europa e os seus meros mandatários</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/156433.html</link>
  <description>&lt;p&gt;2 de Agosto de 1997&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era inevitável: os jornalistas presentes em Santander estavam mais interessados em pôr-me a falar sobre a vida real do que em discutir as minhas opiniões sobre a arte cinematográfica... Perguntaram-me pela Europa e eu respondi-lhes que a União Europeia não passa de um império económico, e que não gosto de impérios, em particular se se excluem as ideologias políticas ou as reduzem a meras etiquetas sem valor. Perguntaram-me pela democracia, e eu respondi-lhes que a democracia, tal como a estamos vivendo, é uma mentirosa falácia, que não se pode falar de democracia quando sabemos que os governos, resultando de atos eleitorais democráticos, logo se tornam em meros mandatários do único poder real e efetivo, que é o das corporações económicas e financeiras transnacionais. Também me perguntaram pelo comunismo, e eu respondi-lhes que o socialismo não se pode construir nem contra os cidadãos nem sem os cidadãos, e que por isto não ter sido entendido é que a esquerda é hoje um campo de ruínas onde, apesar de tudo, uns quantos ainda teimam em buscar e colar fragmentos das velhas ideias com a esperança de poderem criar algo novo... «Irão consegui-lo?», perguntaram-me, e eu respondi: «Sim, um dia, mas eu já cá não estarei para ver...»&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;a href=&quot;http://josesaramago.blogs.sapo.pt/18815.html&quot;&gt;&lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote, Diário V&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://media.josesaramago.org/images/Site/bibliografia/cadernos_lanzarote/caminho_capa_V.jpg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;120&quot; height=&quot;188&quot; /&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 17 Jan 2012 00:01:52 GMT</pubDate>
  <title>As lágrimas do Juiz Garzón</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;As lágrimas do Juiz Garzón hoje são as minhas lágrimas. Há anos, a um meio-dia, tomei conhecimento de uma notícia que foi uma das maiores alegrias da minha vida: a acusação a Pinochet. Este meio-dia recebi outra notícia, esta das mais tristes e desesperançadas: que quem se atreveu com os ditadores foi afastado da magistratura pelos seus pares. Ou melhor dito, por juízes que nunca processaram Pinochet nem ouviram as vítimas do franquismo.Garzón é o exemplo de que o agricultor de Florença não tinha razão quando, em plena Idade Média, fez dobrar os sinos a finados porque, dizia, a justiça havia morrido. Com Garzón sabíamos que as leis e o seu espírito estavam vivos porque as víamos actuar. Com o afastamento de Garzón os sinos, depois do repique a glória que farão os falangistas, os implicados no caso Gürtell, os narcotraficantes, os terroristas e os nostálgicos das ditaduras, voltarão a dobrar a finados, porque a justiça e o estado de direito não avançaram, nem terão ganho em transparência e quem não avança, retrocede. Dobrarão a finados, sim, mas milhões de pessoas sabem reconhecer o cadáver, que não é o de Garzón, esclarecido, respeitado e querido em todo o mundo, mas o daqueles que, com todo o tipo de argúcias, não querem uma sociedade com memória, sã, livre e valente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;O Caderno de Saramago&lt;/em&gt;, publicado a 14 de Maio de 2010&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://media.josesaramago.org/images/Noticias/capas_caderno_2.jpg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;486&quot; /&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 05 Jan 2012 23:55:51 GMT</pubDate>
  <title>Plataforma de sentimentos</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;O cão é uma espécie de plataforma onde os sentimentos humanos se encontram. O cão aproxima-se dos homens para perguntar-lhes o que é isso de se ser humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Planeta Humano&lt;/em&gt;, Madrid, nº 35, Janeiro de 2001&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 04 Jan 2012 23:57:08 GMT</pubDate>
  <title>Males comuns</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Todos somos feitos de ruindade e indiferença.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Turia&lt;/em&gt;, Teruel, nº 57, 2001&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 03 Jan 2012 21:42:32 GMT</pubDate>
  <title>Página em branco</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;A pergunta “quem és tu?” ou “quem sou eu?” tem uma resposta muito fácil: cada um conta a sua vida. A pergunta que não tem resposta é outra: “que sou eu?”. Não “quem” mas sim “quê”. Aquele que se faça essa pergunta irá enfrentar-se com uma página em branco, e não será capaz de escrever uma única palavra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;El Universal&lt;/em&gt;, México D.F., 16 de Maio de 2003&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 02 Jan 2012 21:41:23 GMT</pubDate>
  <title>Tempo e lugar</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Somos muito mais filhos do tempo em que nascemos e vivemos, que do lugar onde nascemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Rebelión&lt;/em&gt;, Cuba, 12 de Outubro de 2003&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 29 Dec 2011 23:15:41 GMT</pubDate>
  <title>A mais dispensável de todas as coisas</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Hoje em dia, o ser humano é a mais dispensável de todas as coisas. Que pensem nisso os que nos atormentam os ouvidos com hipócritas prédicas sobre a eminente dignidade do ser humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Contrapunto de América Latina&lt;/em&gt;, Buenos Aires, n.º 9, Julho-Setembro de 2007&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 28 Dec 2011 23:32:23 GMT</pubDate>
  <title>A capacidade de indignar-nos</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/154773.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Perdemos a capacidade de indignar-nos. De contrário o mundo não estaria como está.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;El Imparcial&lt;/em&gt;, Madrid, 26 de Outubro de 2006&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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