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  <title>Outros Cadernos de Saramago</title>
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  <description>Outros Cadernos de Saramago - SAPO Blogs</description>
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  <pubDate>Wed, 16 May 2012 09:28:50 GMT</pubDate>
  <title>Carlos Fuentes</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Carlos Fuentes, criador da expressão “território de La Mancha”, uma fórmula feliz que passou a exprimir a diversidade e a complexidade das vivências existenciais e culturais que unem a Península Ibérica e a América do Sul, acaba de receber em Toledo o Prémio D. Quixote. O que se segue é a minha homenagem ao escritor, ao homem, ao amigo.O primeiro livro de Carlos Fuentes que li foi “Aura”. Embora não tenha voltado a ele, guardei até hoje (mais de quarenta anos passaram) a impressão de haver penetrado num mundo diferente de tudo o que conhecera até então, uma atmosfera composta de objectividade realista e de misteriosa magia, em que estes contrários, afinal mais aparentes que efectivos, se fundiam para criar no espírito do leitor uma envolvência em todos os aspectos singular. Não foram muitos os casos em que o encontro de um livro tenha deixado na minha memória uma tão intensa e perene lembrança.Não era um tempo em que as literaturas americanas (às do Sul me refiro) gozassem de um especial favor do público ilustrado. Fascinados desde gerações pelas &lt;em&gt;lumières&lt;/em&gt; francesas, hoje empalidecidas, observávamos com certa displicência (a fingida displicência da ignorância que sofre por ter de reconhecer-se como tal) o que se ia fazendo para baixo do rio Grande e que, para agravar a situação, embora pudesse viajar com relativo à vontade a Espanha, mal se detinha em Portugal. Havia lacunas, livros que simplesmente não apareciam nas livrarias, e também a confrangedora falta de uma crítica competente que nos ajudasse a encontrar, no pouco que ia sendo posto ao nosso alcance, o muito de excelente que aquelas literaturas, lutando em muitos casos com dificuldades semelhantes, iam tenazmente elaborando. No fundo, talvez houvesse uma outra explicação: os livros viajavam pouco, mas nós ainda viajávamos menos.A minha primeira viagem ao México foi para participar, em Morelia, num congresso sobre a crónica. Não tive então tempo para visitar livrarias, mas já começara a frequentar com assiduidade a obra de Carlos Fuentes através, por exemplo, da leitura de livros fundamentais, como foram os casos de “La región más transparente” e “La muerte de Artemio Cruz”. Tornou-se-me claro que estava ali um escritor de altíssima categoria artística e de uma incomum riqueza conceptual. Mais tarde, um outro romance extraordinário, “Terra nostra”, rasgou-me novas perspectivas, e daí em diante, sem que seja necessário referir aqui outros títulos (salvo “El espejo enterrado”, livro de fundo, indispensável a um conhecimento sensível e consciente da América do Sul, como sempre preferi chamar-lhe), reconheci-me, definitivamente, como devoto admirador do autor de “Gringo Viego”. Conhecia já o escritor, faltava-me conhecer o homem.Agora, uma confissão. Não sou pessoa facilmente intimidável, muito pelo contrário, mas os meus primeiros contactos com Carlos Fuentes, em todo o caso sempre cordiais, como era lógico esperar de duas pessoas bem educadas, não foram fáceis, não por culpa dele, mas por uma espécie de resistência minha a aceitar com naturalidade o que em Carlos Fuentes era naturalíssimo, isto é, a sua forma de vestir. Todos sabemos que Fuentes veste bem, com elegância e bom gosto, a camisa sem uma ruga, as calças de vinco perfeito, mas, por ignotas razões, eu pensava que um escritor, especialmente se pertencia àquela parte do mundo, não deveria vestir assim. Engano meu. Afinal, Carlos Fuentes tornou compatível a maior exigência crítica, o maior rigor ético, que são os seus, com uma gravata bem escolhida. Não é pequena cousa, creiam-me.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(14 de Outubro de 2008)&lt;/p&gt;</description>
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  <category>carlos fuentes</category>
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  <pubDate>Wed, 16 May 2012 09:10:42 GMT</pubDate>
  <title>Carlos Fuentes em Lanzarote</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;div class=&quot;section&quot;&gt;
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&lt;div class=&quot;column&quot;&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;28 de agosto de 1997&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Carlos Fuentes, o grande escritor mexicano, a quem admiro desde que, há muitos anos já, li esse livro fasci&lt;/span&gt;&lt;span&gt;nante que é &lt;/span&gt;&lt;span&gt;Aura, &lt;/span&gt;&lt;span&gt;passou ontem por Lanzarote. Veio com sua mulher, a jornalista Silvia Lemus, estiveram algumas horas (duas delas ocupadas por uma entrevista que dei a Silvia), e juntos visitámos a Fundação César Manrique. Ficou claro, logo desde o primeiro momento, que estávamos a colocar a primeira pedra de uma amizade que se consolidará (estou certo disso) na viagem que Pilar e eu faremos, no próximo ano, ao México. Registo aqui o recolhimento com que Carlos Fuentes leu o poema de Rafael Alberti dedicado a César Manrique, aquele que está na Fundação: Vuelvo a encontrar mi azul... No fim, Fuentes disse: «Poetas como Alberti e Neruda convertem em poesia tudo o que tocam.» Foi um dia grande para Lanzarote.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;in Cadernos de Lanzarote, volume V&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
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  <category>carlos fuentes</category>
  <category>lanzarote</category>
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  <pubDate>Mon, 07 May 2012 12:55:09 GMT</pubDate>
  <title>O velho, o rapaz e o burro</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>«Os desencontros e turbulências das relações entre Portugal e Brasil resultam provavelmente de um equí- voco. Meteu-se-nos na cabeça que estamos obrigados a unir-nos por um amor mais que perfeito, por uma com- preensão exemplar, por uma ligação espiritual sem par no universo. E que se não puder ser assim, então não vale a pena. Oscilamos portanto entre o tudo e o nada, como se andássemos a incubar desde há séculos uma paixão tem- pestuosa (em todo o caso mais sofrida do lado de cá do que sentida do lado de lá), a qual, não tendo podido alcançar a consumação plena, passou a alimentar-se de pequenas anedotas, de pequenos despeitos, de pequenos rancores, sempre demonstrativos de que a culpa é deles. A história do velho, do rapaz e do burro parece ter sido escrita para mostrar como no dia a dia da relação de por- tugueses e brasileiros uns com os outros se armam con- flitos, se insinuam suspeitas de segundas intenções, se desenham conscientes ou inconscientes desdéns. Claro que o símile não é exato em todos os seus pontos. Se é certo que os portugueses não se oporiam demasiado a desempenhar o papel do velho (a isso aconselhariam os séculos de história de que tanto se gabam), se a persona- gem do moço assentaria como uma luva aos brasileiros (independentes, por assim dizer, desde anteontem), já é duvidoso haver alguém em qualquer das nossas duas margens atlânticas disposto a reconhecer-se no burro, mesmo sendo o que menos culpas tem na historieta. Que para ilustração das novas gerações brevemente se narra. «(O avô ia a pé e o neto no burro. Cruzaram-se com uma pessoa a quem pareceu o caso mal: que vergonha, o pobre velho à pata e o moço regalado de poleiro. Atento às bocas do mundo, o avô fez descer o rapaz e foi ocupar-lhe o lugar no lombo do jumento. Imediatamente protestou ￼￼￼￼￼￼outro contra o atentado: o infeliz menino a pisar o pó dos caminhos enquanto o malandro do velho viajava repim- pado na albarda. Desceu então o avô e resolveu que conti- nuariam os dois a pé, deixando ir o burro sem carga. Mas não tardou que outro passante se risse da estupidez: aque- les tinham uma besta de carga e não se serviam dela. Perante isto, o velho tornou a sentar o neto no burro e montou atrás dele, mas logo surgiu outra pessoa a protes- tar contra a crueldade com que os desapiedados tratavam o animalzinho, obrigando-o a aguentar dupla carga. Então o velho disse: “Deixemos que falem estes e vamos nós como antes.” Fez subir o neto para o dorso do jumento, e, com a lição aprendida, seguiram os três o seu destino.) «Há muito desta história de velho, rapaz e burro nas relações luso-brasileiras. Não damos um passo sem que nos atropelem dificuldades, umas nascidas ali, outras vin- das de longe mas renovadas e melhoradas para a ocasião. Ainda as assinaturas não secaram em alguns tratados e acordos laboriosamente tecidos e já os patriotas encarta- dos de um lado e do outro começam a gritar que eles nos enganaram. Nunca se viu gente que tanto desconfie do parceiro a quem ao mesmo tempo vem chamando irmão e amigo. Por cima da mesa assiste-se ao florir contínuo duma retórica vã, bordada de artifícios e aparências, mas por baixo fervem as chacotas e as piadas insultantes. Põe-se milagrosamente de pé, tem-te não caias, uma CPLP, e imediatamente se começa a minar-lhe o chão para que se desmorone e afunde. Proclamamos reciprocidades de direitos e logo tratamos de fechar a porta a quem os rei- vindica. Imaginámos uma fraternidade que não existe de facto, fizemos dela um teto sob o qual nos abrigaríamos juntinhos, como irmãos ou primos carnais, e todos os dias vemos que o tal teto não tem colunas que duradoura￼￼￼￼￼￼￼￼￼￼mente o sustentem, que quase tudo o que debaixo dele se diz e faz será para desmentir ou anular no dia seguinte. «Ponhamos então o amor de parte, deixemo-nos de irmandades postiças, comporte-se Portugal como se o Bra- sil fosse um outro qualquer país com que simplesmente mantemos boas relações. Faça o Brasil o mesmo em rela- ção a nós. Depois identifiquemos interesses comuns aos dois países, definamos claramente as opções, ponhamos os meios necessários, e cometido isto, trabalhemos juntos. Sem discursos. Quem sabe se o amor (um verdadeiro amor feito de respeito mútuo e de dignidade discreta) não virá depois? Já se tentou tudo, e não deu resultado. Ao menos o avô da história acabou por compreender.»
&lt;p&gt;(artigo publicado na revista Visão e incluído nos Cadernos de Lanzarote, Diário V, 17 de setembro de 1997)</description>
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  <pubDate>Tue, 01 May 2012 09:39:08 GMT</pubDate>
  <title>Golo na própria baliza</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito seculo que está prestes a acabar? (Digo maldito e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: &quot;Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer&quot;. Sem dúvida, mas não desta maneira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(&lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote - Diário II&lt;/em&gt;, 3 de julho de 1994)&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 05 Apr 2012 13:36:58 GMT</pubDate>
  <title>O factor Deus</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá &quot;ver&quot; cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez &quot;aqui estou&quot; quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talibans, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o &quot;factor Deus&quot;, esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o &quot;factor Deus&quot; o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o &quot;factor Deus&quot; em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o &quot;factor Deus&quot;, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do &quot;factor Deus&quot;. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;object width=&quot;420&quot; height=&quot;315&quot; classid=&quot;clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000&quot; codebase=&quot;http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0&quot;&gt;&lt;param name=&quot;allowFullScreen&quot; value=&quot;true&quot; /&gt;&lt;param name=&quot;allowscriptaccess&quot; value=&quot;always&quot; /&gt;&lt;param name=&quot;src&quot; value=&quot;http://www.youtube.com/v/TUmePaURzSo?version=3&amp;amp;hl=es_ES&amp;amp;rel=0&quot; /&gt;&lt;param name=&quot;allowfullscreen&quot; value=&quot;true&quot; /&gt;&lt;embed width=&quot;420&quot; height=&quot;315&quot; type=&quot;application/x-shockwave-flash&quot; src=&quot;http://www.youtube.com/v/TUmePaURzSo?version=3&amp;amp;hl=es_ES&amp;amp;rel=0&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; allowscriptaccess=&quot;always&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; /&gt;&lt;/object&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 03 Apr 2012 10:51:34 GMT</pubDate>
  <title>3 de abril (de 1996)</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/156924.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; cresceu, fez-se homem. Os dentes, que ao princípio, quando nos apareceu aqui, há cinco meses, não passavam de uma fina serrilha, tornaram-se em armas poderosas, e as patas trangalhadanças, que antes pareciam não saber andar na mesma direção, aprenderam a desferir golpes violentos e certeiros, capazes de derrubar qualquer adversário. Já não se esconde debaixo das camas quando a &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; lhe entram as fúrias do seu oteliano ciúme. Agora responde de igual para igual e as rixas são tremendas. &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; não quer perder a autoridade de &lt;em&gt;primis occupantis&lt;/em&gt; e, pelo que se vê, &lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; anda a querer tomá-la para si, embora tenha sido o último a chegar. &lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; é mais alto, &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; mais maciço. Estão um para o outro. Mas &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt; tem o costume de lutar ladeando um pouco a cabeça, e isso é mau para ele, além de representar, se o manual diz certo, um primeiro sinal de fraqueza: como um karateca cinturão negro, &lt;em&gt;Camões&lt;/em&gt; desfere fulminantes patadas que já mais de uma vez foram alcançar e ferir o olho direito de &lt;em&gt;Pepe&lt;/em&gt;. É difícil separá-los quando brigam, parece que levam lá dentro, acumuladas, todas as raivas do mundo. Já quase desespero de fazê-los entender que nesta casa há lugar para todos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Atenção: embora os nomes sejam humanos, é de cães que estou a falar. O que me deixa ainda uma certa esperança.)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não é a primeira carta anónima que me entra em casa. Mas, ao contrário de outras, repugnantemente sujas pelos próprios insultos com que querem atingir-me, esta, com limpeza e confiança, diz-me: «Precisamos que continues a escrever.» E, afinal, nem é tão anónima assim. Traz assinatura: Um camarada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Diário IV&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 27 Feb 2012 00:01:08 GMT</pubDate>
  <title>A Europa e os seus meros mandatários</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/156433.html</link>
  <description>&lt;p&gt;2 de Agosto de 1997&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era inevitável: os jornalistas presentes em Santander estavam mais interessados em pôr-me a falar sobre a vida real do que em discutir as minhas opiniões sobre a arte cinematográfica... Perguntaram-me pela Europa e eu respondi-lhes que a União Europeia não passa de um império económico, e que não gosto de impérios, em particular se se excluem as ideologias políticas ou as reduzem a meras etiquetas sem valor. Perguntaram-me pela democracia, e eu respondi-lhes que a democracia, tal como a estamos vivendo, é uma mentirosa falácia, que não se pode falar de democracia quando sabemos que os governos, resultando de atos eleitorais democráticos, logo se tornam em meros mandatários do único poder real e efetivo, que é o das corporações económicas e financeiras transnacionais. Também me perguntaram pelo comunismo, e eu respondi-lhes que o socialismo não se pode construir nem contra os cidadãos nem sem os cidadãos, e que por isto não ter sido entendido é que a esquerda é hoje um campo de ruínas onde, apesar de tudo, uns quantos ainda teimam em buscar e colar fragmentos das velhas ideias com a esperança de poderem criar algo novo... «Irão consegui-lo?», perguntaram-me, e eu respondi: «Sim, um dia, mas eu já cá não estarei para ver...»&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;a href=&quot;http://josesaramago.blogs.sapo.pt/18815.html&quot;&gt;&lt;em&gt;Cadernos de Lanzarote, Diário V&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://media.josesaramago.org/images/Site/bibliografia/cadernos_lanzarote/caminho_capa_V.jpg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;120&quot; height=&quot;188&quot; /&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 17 Jan 2012 00:01:52 GMT</pubDate>
  <title>As lágrimas do Juiz Garzón</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/156187.html</link>
  <description>&lt;p&gt;As lágrimas do Juiz Garzón hoje são as minhas lágrimas. Há anos, a um meio-dia, tomei conhecimento de uma notícia que foi uma das maiores alegrias da minha vida: a acusação a Pinochet. Este meio-dia recebi outra notícia, esta das mais tristes e desesperançadas: que quem se atreveu com os ditadores foi afastado da magistratura pelos seus pares. Ou melhor dito, por juízes que nunca processaram Pinochet nem ouviram as vítimas do franquismo.Garzón é o exemplo de que o agricultor de Florença não tinha razão quando, em plena Idade Média, fez dobrar os sinos a finados porque, dizia, a justiça havia morrido. Com Garzón sabíamos que as leis e o seu espírito estavam vivos porque as víamos actuar. Com o afastamento de Garzón os sinos, depois do repique a glória que farão os falangistas, os implicados no caso Gürtell, os narcotraficantes, os terroristas e os nostálgicos das ditaduras, voltarão a dobrar a finados, porque a justiça e o estado de direito não avançaram, nem terão ganho em transparência e quem não avança, retrocede. Dobrarão a finados, sim, mas milhões de pessoas sabem reconhecer o cadáver, que não é o de Garzón, esclarecido, respeitado e querido em todo o mundo, mas o daqueles que, com todo o tipo de argúcias, não querem uma sociedade com memória, sã, livre e valente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;O Caderno de Saramago&lt;/em&gt;, publicado a 14 de Maio de 2010&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://media.josesaramago.org/images/Noticias/capas_caderno_2.jpg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;486&quot; /&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 05 Jan 2012 23:55:51 GMT</pubDate>
  <title>Plataforma de sentimentos</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/156020.html</link>
  <description>&lt;p&gt;O cão é uma espécie de plataforma onde os sentimentos humanos se encontram. O cão aproxima-se dos homens para perguntar-lhes o que é isso de se ser humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Planeta Humano&lt;/em&gt;, Madrid, nº 35, Janeiro de 2001&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 04 Jan 2012 23:57:08 GMT</pubDate>
  <title>Males comuns</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/155720.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Todos somos feitos de ruindade e indiferença.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Turia&lt;/em&gt;, Teruel, nº 57, 2001&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 03 Jan 2012 21:42:32 GMT</pubDate>
  <title>Página em branco</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/155470.html</link>
  <description>&lt;p&gt;A pergunta “quem és tu?” ou “quem sou eu?” tem uma resposta muito fácil: cada um conta a sua vida. A pergunta que não tem resposta é outra: “que sou eu?”. Não “quem” mas sim “quê”. Aquele que se faça essa pergunta irá enfrentar-se com uma página em branco, e não será capaz de escrever uma única palavra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;El Universal&lt;/em&gt;, México D.F., 16 de Maio de 2003&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 02 Jan 2012 21:41:23 GMT</pubDate>
  <title>Tempo e lugar</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/155163.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Somos muito mais filhos do tempo em que nascemos e vivemos, que do lugar onde nascemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Rebelión&lt;/em&gt;, Cuba, 12 de Outubro de 2003&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 29 Dec 2011 23:15:41 GMT</pubDate>
  <title>A mais dispensável de todas as coisas</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/155032.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Hoje em dia, o ser humano é a mais dispensável de todas as coisas. Que pensem nisso os que nos atormentam os ouvidos com hipócritas prédicas sobre a eminente dignidade do ser humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Contrapunto de América Latina&lt;/em&gt;, Buenos Aires, n.º 9, Julho-Setembro de 2007&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 28 Dec 2011 23:32:23 GMT</pubDate>
  <title>A capacidade de indignar-nos</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/154773.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Perdemos a capacidade de indignar-nos. De contrário o mundo não estaria como está.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;El Imparcial&lt;/em&gt;, Madrid, 26 de Outubro de 2006&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 27 Dec 2011 23:35:32 GMT</pubDate>
  <title>Estado-Providência</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/154579.html</link>
  <description>&lt;p&gt;O “Estado-Providência&quot; é mais retórica política do que realidade social. O Estado-Providência esteve ligado à superprodução de bens de consumo de todo o tipo e isso não é um Estado-Providência. A linguagem serve para tudo e serve, muitas vezes, de máscara para a realidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Público&lt;/em&gt;, Madrid, 20 de Novembro de 2008&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 15 Dec 2011 00:01:31 GMT</pubDate>
  <title>Dois mais dois</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/154287.html</link>
  <description>&lt;p&gt;As pessoas gostam de ser convencidas de que dois mais dois são cinco. E se aparece alguém a dizer que são quatro, é um herege. Ou um desmancha-prazeres. Sobretudo, um desmancha-prazeres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Visão&lt;/em&gt;, Lisboa, 6 de Novembro de 2008&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 14 Dec 2011 00:01:52 GMT</pubDate>
  <title>Adormecidos</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/153948.html</link>
  <description>&lt;p&gt;O que há é um adormecimento a todos os níveis da sociedade. Este sistema adormeceu-nos. E agora ri-se simplesmente de nós.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Jornal de Notícias&lt;/em&gt;, Porto, 5 de Novembro de 2008&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 09 Dec 2011 00:01:54 GMT</pubDate>
  <title>No tempo da mentira universal</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/153676.html</link>
  <description>&lt;p&gt;O tempo das verdades plurais acabou. Agora vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Tabu&lt;/em&gt;, Lisboa, nº 84, 19 de Abril de 2008&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 07 Dec 2011 00:01:34 GMT</pubDate>
  <title>Mentiras entrelaçadas</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/153437.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Vivemos num sistema de mentiras organizadas, entrelaçadas umas nas outras. E o milagre é que, apesar de tudo, consigamos construir as nossas pequenas verdades, com as quais vivemos, e das quais vivemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Tabu&lt;/em&gt;, Lisboa, nº 84, 19 de Abril de 2008&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 06 Dec 2011 00:01:28 GMT</pubDate>
  <title>Promoção e propaganda</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/153324.html</link>
  <description>&lt;p&gt;As indústrias culturais do nosso tempo, servidas por máquinas de promoção e propaganda, direccionadas para tácticas e estratégias de proeminência ideológica que, de alguma forma, tornam obsoleto o recurso às acções directas, vêm reduzindo os países menores a um mero papel de figurantes, induzindo-os a um primeiro grau de invisibilidade, de inexistência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;José Saramago. Una mirada triste y lúcida&lt;/em&gt;, Madrid, Algaba Ediciones, 2007&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 05 Dec 2011 00:01:46 GMT</pubDate>
  <title>O ser humano como consumidor</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/152975.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Introduziu-se nas nossas mentes essa ideia nova de que se não consomes não és nada. Se não consomes, tu não serás ninguém. E serás tanto mais quanto mais fores capaz de consumir. A partir do momento em que o ser humano se vê a si mesmo como um consumidor, todas as suas capacidades diminuem, porque todas vão ser postas ao serviço de uma maior possibilidade de consumir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;La Jiribilla&lt;/em&gt;, Havana, 22 de Setembro de 2007&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 23 Nov 2011 23:35:50 GMT</pubDate>
  <title>Quelle Europe veut-on?</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
  <link>http://caderno.josesaramago.org/152705.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Que Europa queremos?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do ponto de vista de uma ética abstracta, se tal conjunção existe, a Europa não tem mais responsabilidades no tribunal da História que qualquer outra parte do mundo onde se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, quando exercida, como é desejável, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas: embora variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos vai pedindo contas todos os dias. Gostaria de pensar que estamos vivendo num tempo em que a Europa deveria apresentar ao juízo do mundo o balanço da sua gestão histórica, se não pretende prolongar, com o requinte de métodos que os modernos meios de comunicação de massa possibilitam, o seu vício maior, o seu pecado mortal, que é, ainda hoje, e não apenas no que se refere aos aspectos geográficos e físicos do caso, a existência de duas Europas, a central e a periférica, com o resultante e pesado lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos. Pelo que têm de óbvio, não falarei aqui das guerras, das invasões, dos genocídios e das eliminações selectivas que não pouparam nenhum espaço europeu. Falo, sim, da ofensa grosseira que é, tanto como essa outra espécie de deformação congénita a que chamamos eurocentrismo, aquele comportamento aberrante que consiste em ser a Europa cêntrica e eurocêntrica em relação ao seu próprio continente. Para alguns Estados europeus, culturalmente superiores segundo a narcísica opinião que de si mesmos alimentam, o resto da Europa sempre foi algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção de antropólogos e arqueólogos, mas onde, apesar de tudo, contando com adequadas colaborações locais, ainda se podiam fazer alguns bons negócios…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não creio que venha a existir uma Europa autenticamente nova se esta em que vivemos não conseguir organizar-se segundo os ditames de uma ética da responsabilidade. E também não existirá se, mais do que os egoísmos nacionais, que frequentemente resultam de meros reflexos defensivos, não forem eliminados da nossa consciência os velhos preconceitos da prevalência ou da subordinação cultural. Tenho presente a importância dos factores económicos, políticos e militares nesta teia perversa de relações, mas, como homem de literatura, considero meu dever recordar que as hegemonias culturais de hoje são consequência, no essencial, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve artes de impor-se como inelutável, quase sempre favorecido perla resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. É tempo de dizer que as culturas não são melhores ou piores, não são mais ricas ou mais pobres, são simplesmente culturas. Nisso, valem-se umas às outras, e é pelas suas diferenças, assumidas e aprofundadas, que mutuamente se justificarão. Não há, e espero que não, o ser humano. Cada cultura, em si mesma, é um universo comunicante: o espaço que as separa é o mesmo espaço que as liga, como o mar separa e liga os continentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo inteiro anda a vestir o corpo com as mesmas roupas, ao mesmo tempo que vai usando as mesmas palavras para expressar os mesmos e cada vez mais repetitivos circuitos mentais. Começam, no entanto, a manifestar-se sinais de inquietação em áreas culturais europeias não oficiais. Parece ter-se compreendido não só que os factores culturais tinham vindo a ser praticamente menosprezados, mas também que o próprio processo integrador da União se havia convertido numa espécie de voraz Ugolino, com a diferença de que este de agora, não devorando da mesma maneira todos os seus filhos, e acaso cuidando de um ou outro com especial carinho, parecia comprazer-se nas sucessivas amputações do já de si exangue corpo da cultura europeia. Simplificando um tanto, direi que se enfrentam hoje na Europa dois partidos de forças manifestamente desiguais: o partido, maioritário, dos que têm para a cultura um projecto mercantilista, como se, tendo herdado espiritualmente Camões, Cervantes e Goethe, não tivessem outra ambição que encontrar o modo mais expedito de os converter em euros, e o partido dos outros, claramente minoritários, que ainda não esqueceram nem querem esquecer a vocação criadora europeia, rica de milénios de invenção e experimentação, e entendem que uma cultura sujeita às leis do mercado acabará fatalmente por estiolar-se. Como já está a suceder.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dando expressão a estas preocupações, chegou a falar-se há tempos na necessidade de uma Europa refundada que afirmasse a sua paixão pelas diferenças culturais, uma Europa de culturas plurais e não de Estados forçadamente unidos, uma Europa de pólos de intensidade, mais do que de capitais, uma Europa não centralizada, mas descentrada. Se não havia então nestas ideias o objectivo meramente táctico de dar aos descontentes algo com que se distraíssem enquanto a lógica implacável do mercado prosseguia o seu caminho, se elas viessem a gerar passos efectivos para uma compreensão multiplamente irradiante da Europa por si mesma e da sua relação cultural com o resto do mundo, então seria talvez possível acreditar na viabilidade da Europa generosa e espiritualmente viva cuja esperança muitos de nós teimamos em guardar no coração. A responsabilidade dos dirigentes políticos comunitários não poderá ficar-se pela ponderação ou resolução mais ou menos afortunadas das questões económicas da Europa, ao mesmo tempo que as questões sociais lhes merecem uma atenção insignificante, se não preferirmos, com muito mais realismo e verdade, chamar-lhe simplesmente indiferença. A um &lt;em&gt;grand patron&lt;/em&gt; da indústria francesa ouvi eu dizer não há muito tempo: &lt;em&gt;Le social, cher Monsieur, je m’en fout…&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não é este o lugar para falar de algumas dessas questões, como o desemprego, a insegurança nas grandes cidades, a marginalização, a precariedade das pensões, as deficiências da assistência hospitalar, o fracasso rotundo da educação de massa. Cingindo-me ao tema, direi que sempre me surpreendeu não encontrar qualquer alusão às questões da cultura sempre que vi abordar o labiríntico conjunto dos problemas sociais. Todos estamos conscientes de que se acabaram as fronteiras entre a política e a economia, que ao redor do mundo a Especulação paira sobre as nossas cabeças como antes se acreditava que o Espírito pairava sobre as águas, e, pela incontornável força das coisas, já não estranhamos que assim seja. O que não parecemos dispostos é a reconhecer que, no seu sentido mais amplo, uma consideração realmente abrangente e integradora do que designamos por «social» nunca será possível enquanto a dimensão cultural da existência social humana não for inteiramente assumida. Não como um território à parte, com fronteiras, alfândegas e pautas proteccionistas, mas como o tecido conjuntivo da identidade própria de cada pessoa e da sua pertença a um grupo, a um país, a uma civilização.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma Europa de culturas plurais, uma Europa descentrada, uma Europa de diferenças estaria obrigada, por essa nova natureza sua, a fazer observar uma relação de paridade operacional entre as diversas culturas que a compõem, todas elas, sem excepção. Teria de respeitar o espaço próprio de cada uma como parceira de pleno e inteiro direito, sem sujeição a outras que, também por razões de ordem política e estratégia geral, se têm comportado como «imperializantes» por uma espécie de «direito divino», recolhendo daí todos os benefícios, sem esquecer as vantagens grosseiramente materiais que qualquer tipo de hegemonia costuma facilitar. Uma Europa, assim, termo de um binómio complexo em que o outro termo fosse o Universal, nunca seria uma Europa culturalmente colonizada nem dominada por um ou dois dos seus países. Essa Europa, enfim rejuvenescida, seria a da pluralidade de culturas, a desejada Europa sem centro, uma Europa não de clientes, mas de cidadãos, ou, mais simplesmente, uma Europa de pessoas. Sem excepções que matam nem hegemonias que assassinam – o que pressuporia, provavelmente, a necessidade de um entendimento também novo da Democracia. Mas isto já seria tema para outra conversa…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;strong&gt;José Saramago&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Conferência proferida em 1999&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 22 Nov 2011 00:01:23 GMT</pubDate>
  <title>Mudar a vida</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Não mudaremos a vida se não mudamos de vida. Há que perder a paciência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;El Tiempo&lt;/em&gt;, Bogotá, 9 de Julho de 2007&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 21 Nov 2011 00:01:29 GMT</pubDate>
  <title>Limites da imagem</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Diz-se sempre que uma imagem vale mais que mil palavras, mas isso não é certo. Uma imagem tem limites, o enquadramento despreza o que dele está fora. O que não vemos numa fotografia pode ajudar a entender o que está na imagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;El Diario Montañés&lt;/em&gt;, Santander, 11 de Julho de 2006&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;em&gt;José Saramago nas Suas Palavras&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;saportelink&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/fundacaosaramago/fotos/?uid=84no3YYadOipbTCRYay7&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border: 0pt none;&quot; src=&quot;http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f07e57b/9460974_266kk.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;319&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 18 Nov 2011 00:01:29 GMT</pubDate>
  <title>&quot;José e Pilar. Conversas inéditas&quot; XV</title>
  <author>Fundação Saramago</author>
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  <description>&lt;p&gt;Sou escritor, quer dizer, escrevo, tenho o privilégio infinito de viver daquilo que escrevo. E não sei se há mais alguma coisa para contar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;José Saramago&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;In &lt;a href=&quot;http://quetzal.blogs.sapo.pt/311556.html&quot;&gt;&lt;em&gt;José e Pilar. Conversas inéditas&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;, Pág. 205&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://ocadernodesaramago.files.wordpress.com/2011/11/jose_pilar_conversas_ineditas.jpeg&quot;&gt;&lt;img class=&quot;aligncenter&quot; title=&quot;planoK_Jose_Pilar&quot; src=&quot;http://ocadernodesaramago.files.wordpress.com/2011/11/jose_pilar_conversas_ineditas.jpeg&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;325&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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