Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Suborno

Tinha jurado a mim mesmo não voltar a escrever sobre este figurão nos tempos mais próximos, mas, uma vez mais, a força dos factos pôde mais que a minha vontade. Neste caso não se trata de misses, modelos e bailarinas escolhidas a dedo (ou por dedos) para o Parlamento Europeu nem de jóias como presente de aniversário a jovens “ragazze” pouco mais que adolescentes que tratam o primeiro-ministro italiano por “papi”, termo que não sei exactamente o que quererá dizer (o meu forte não é italiano falado pelas lolitas de lá), mas que prometeria muito até ao menos atento dos exames. Também não se trata do badalado divórcio do qual, pessoalmente, duvido muito que se venha a consumar porque os interesses materiais mútuos pesam e o risco é grande de que a comédia (se o é) acabe em reconciliação e muitas horas de transmissão televisiva.

O que me tirou do meu relativo sossego em relação ao “padrone” Berlusconi foi uma sentença do Tribunal de Milão que condena o advogado britânico David Mills a quatro anos e meio de prisão por corrupção em acto judicial. Afirma-se na sentença que Berlusc (saiu assim, assim o deixo ficar) subornou em 1997, nada menos que com 600 mil dólares, o dito advogado e que este incorreu em “falso testemunho” com o objectivo de “proporcionar impunidade a Berlusconi e ao grupo Fininvest”. A reacção de Berlusc foi típica: “É uma sentença absolutamente escandalosa, contrária à realidade”. E mais: “Haverá recurso, haverá outro juiz, e eu estou tranquilo”. O leitor notará aquela referência a “outro juiz” que, pelo menos assim o leio eu, não passa de um acto falhado que me permitirei interpretar desta maneira: “Haverá outro juiz, que eu tratarei de subornar”. Como subornou outros antes, acrescento.

Gostaria de pensar que o fim de Berlusc se aproxima. Mas para isso será necessário que o eleitorado italiano saia da sua apatia, seja ela involuntária ou cúmplice, e retome a frase de Cícero que há dias recordei. Que uma vez digam e que se ouça em todo o mundo: “Demasiado abusaste de nós, Berlusc, a porta está ali, desaparece”. E se essa porta for a da prisão, então poderemos dizer que justiça terá sido feita. Finalmente.



publicado por Fundação Saramago às 00:01
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