Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Saco de gatos
Os avisos não faltaram: cuidado, a União Europeia arrisca-se a ser um saco de gatos com tanto de perigoso como de ridículo. Era impossível que os velhos egoísmos nacionais, a sempiterna ambição pessoal dos políticos, a corrupção mental (pelo menos essa) que desde a primeira hora contagia qualquer intento de organização colectiva que não se reja por princípios claros de honestidade intelectual e de respeito mútuo, era impossível, repito, que este conjunto de negatividades extremas não acabasse por confrontar a União Europeia com a sua mais grotesca caricatura. Sucedeu agora com a intervenção do checo Mirek Topolanek, presidente de turno da União e, desconcertante paradoxo, demissionário do cargo de primeiro-ministro do seu país, que não só investiu contra o presidente dos Estados Unidos nos termos mais duros, acusando-o de, com o seu plano, levar a economia pelo “caminho do inferno”, ou, em versão atenuada, “do desastre”, como deixou claro por onde vão os seus sonhos e simpatias: liberalismo radical da velha escola e rejeição de qualquer medida que possa ser assimilável, ainda que superficialmente, a um intervencionismo social-democrata. O sr. Topolanek é, como se vê, uma firme esperança da humanidade.

Por coincidência, o presidente do governo de Espanha, Rodríguez Zapatero, encontrou-se ainda há dois dias sob fogo cerrado de todo o arco da oposição parlamentar por causa, não da próxima retirada das tropas espanholas, que essa já estava decidida há mais de um ano, mas por ter faltado às normas mais elementares, não informando previamente a NATO nem a administração norte-americana. Em minha opinião, efectivamente, o governo errou. Mas a questão que se me apresenta é esta: que pensa o Parlamento Europeu fazer para deixar claro ao sr. Topolanek que ele, além de reaccionário, é grosseiro e mal-educado?


publicado por Fundação Saramago às 00:01
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