Terça-feira, 24 de Março de 2009
Lá vem lobo!
A história, em geral contada pelo avô da família, era infalível nos serões da província, não como simples divertimento dos inocentes infantes, mas como peça fundamental de um bom sistema educativo, precursora, de alguma forma, do juramento com que as testemunhas se comprometem, ou comprometiam, a dizer a verdade, toda a verdade e só a verdade. A dúvida que aí deixo resulta apenas do facto de não ser frequentador de tribunais, a minha curiosidade sobre as diversas manifestações da natureza humana não me incitou nunca a meter o nariz na vida alheia, mesmo tratando-se do maior criminoso do século. Feitios. Ora, o que na história do avô se contava era que um pequeno pastor de ovelhas, talvez para entreter as suas solitárias horas no monte, decidiu um dia gritar que vinha o lobo, que vinha o lobo, em modo tal que a gente da aldeia, armada de chuços, cachaporras e algum bacamarte da penúltima guerra, saiu em tromba para defender as ovelhas e, de caminho, o zagal que as guardava. Afinal, não havia lobo, tinha fugido com os gritos, disse o moço. Não era verdade, mas, como mentira, parecia bastante convincente. Satisfeito com o resultado da mistificação, o nosso pastor resolveu repetir a graça e, uma vez mais, a aldeia acudiu em peso. Nada, de lobo nem cheiro. À terceira vez, porém, ninguém moveu um pé da sua casa, estava visto que o zagal mentia com quantos dentes tinha na boca, que grite, já se cansará. O lobo levou as ovelhas que quis, enquanto o moço, empoleirado numa árvore, assistia impotente ao desastre. Embora o tema de hoje não seja esse, vem a pêlo recordar as vezes que muitos de nós também gritámos que vinha o lobo. Foram muitos mais os que negavam que o lobo viesse, mas afinal veio e trazia uma palavra na coleira: crise.

Vamos a ver o que se passará depois da recente notícia de que são muitos, muitíssimos, os portugueses que decidiram aprender espanhol e tomam muito a sério a decisão. Temo, porém, que os patrioteiros do costume comecem a gritar por aí que vem o lobo. De acordo que alguma coisa vem, e essa é necessidade de aproximação dos povos da península, este de cá e os outros de lá. A História, quando quer, empurra muito.


publicado por Fundação Saramago às 00:17
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